Ceticismo: não acreditamos em espíritos, mas…

 In essays, society

É claro que, a fim de garantir nossa sanidade e respeitabilidade, ninguém entre nós acredita em espíritos. Se não enxergamos nenhum, é porque não existem – a mesma lógica se aplica à inexistência do mundo, já que cegos não o enxergam. Mas nunca se sabe.

Não acreditamos em espíritos, mas… Nunca se sabe. Alguns acreditam em um poder transcendental onipresente que alguns entre esses alguns chamam de Deus ou Alá. Mas espíritos não; esses não existem. Que assustador seria se existissem, não? Imagine ir ao banheiro no meio da noite e flagrá-los mexendo em suas coisas? Meu Deus! É melhor não acreditar neles para que nem deem o ar da graça. Deus é outra história. Ele é o cara bom que escuta nossas preces. Seria até simpático, uma grande honra, receber Sua visita. Em vez de bagunçar as nossas coisas enquanto fôssemos ao banheiro, Ele as transformaria em ouro, com certeza.

Ah, sim, quase esqueci daqueles que alegam não acreditar em nada. São vários. Esses não precisam acreditar em nada, pois conseguiram atingir a certeza de que não acreditam em nada. Isso não é uma crença; é uma C-E-R-T-E-Z-A, algo com que o racionalismo cartesiano nos abençoou. Esses caras cheios de certeza são tão certos que têm o prazer de duvidar de tudo aquilo de que não têm certeza, incluindo da certeza dos outros que enxergam espíritos no meio da noite. É tão evidente que 80% da população do mundo está perdida por não ter a capacidade de atingir o estado de espírito da certeza, que esses caras ficam pra lá de indignados quando alguém questiona sua certeza. Eles me corrigirão:  é ceticismo cartesiano, o contrário de certeza. Só que Descartes, ao pregar que duvidemos de tudo, esqueceu de por em dúvida a própria dúvida (valeu pela dica, Merleau-Ponty).

Duvidemos de nossa própria dúvida

Então sejamos justos e duvidemos da existência tanto de espíritos, de Deus, quanto do racionalismo e do dinheiro como forças transcendentais onipresentes. Duvidemos de nossa própria dúvida, da nossa arrogância em acreditar (não-crentes podem trocar o termo por “considerar firmemente”) que nosso ceticismo é:

a) Certo, e não cético;

b) Cético de modo geral, e não apenas em relação àquilo que desgostamos e discordamos;

c) Tão maravilhoso que sentimos a necessidade de disseminá-lo convencendo os outros de nossas próprias dúvidas tão certeiras.

Já escutei pessoas dizendo que apenas rezam ou praticam qualquer controvérsia ao seu Sagrado Racionalismo quando desesperadas. No momento em que perdem a esperança no Racionalismo, na ilusão de que têm pleno controle sobre suas vidas – o que por consequência implicaria o controle sobre a vida dos outros também –, elas desesperadamente tentam outros caminhos que tanto duvidam e maldizem. Medicina alopática já não resolve o problema, psicanálise tampouco. Por que não buscar terapias alternativas, como ioga, hipnose, regressão a vidas passadas, xamanismo? O que funcionar.

O Racionalismo vai encontrar Sua justificativa: trata-se de efeito placebo. A vida seria realmente muito mais simples e certeira se tivéssemos em nossa cabeceira pílulas etiquetadas como “placebo” sempre que nos sentíssemos vulneráveis. Independente do nome dado para nos confortar mais uma vez com a ilusão de controle, o Sagrado Racionalismo acaba derrotado por um poder que O transcende.

Nunca se sabe: “Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. Também não acreditamos em placebo, mas como funciona! O Racionalismo comprovou. Não acreditamos em espíritos, mas tampouco vamos mexer com eles; melhor deixá-los quietos para não correr o risco de que nos persigam. A propósito, minhas sinceras desculpas por mexer com os espíritos dos mortos René Descartes e Maurice Merleau-Ponty.

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Comments
  • Perla
    Reply

    Sobre o testo: não enxergamos o AR mas ele é concreto
    questionar nossas duvidas??? ou nossas insipidas certezas
    Ai meodeos…

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