Limitar de cor

 In crônica, sociedade

A luz te atravessa em vitral de mil cores, nuances, matizes do infinito. E me disseram o que não era nem poderia ser e acreditei. Pensei: “não mereço as cores”. Vivi na sombra, debatendo-me para me encaixar-me. Formataram-me ao microespaço que me foi relegado; quatro paredes cinzas, maciças, ventilação embutida. O oxigênio encurtava a cada dia – ao final me entubariam. Ponteiros marcavam meus passos, a batuta desenhava meus gestos, o rádio a voz que eu cantaria, as leis ordens que seguiria, manuais métodos que empregaria, livros linguagens falaria sutiã vestiria vias caminhos caminharia; vetada ventania.

Vivi vedada do vento, voz vil: cantos, apenas quatro verticais, sem escada para subir, só escala a repetir. Decorar não é saber de cor-ação; é embutir um chip dentro da própria víscera, acionável a qualquer momento em que o fiscal passar. Sou carne embutida e me custa a vida manter-me no prazo de validade. Apodreço a cada minuto, dizem-me, ditam-me, deliro. Putrefata com pé fincado no chão, cabeça voltada para o sol encoberto de teto. Cabeça erguida: be happy. Nada mais brega que um fulano norte-americano te falar aos 20 anos de idade com ar de profundidade e sem patrocínio de tênis de corrida “just be yourself” e os anos e décadas passarem e ter que reconhecer a cada dia que passa que o fulano norte-americano tinha razão com vento de profundidade e é tão brega porque é tão óbvio que é tão clichê que é tão distante que ninguém saca. Just do it.

E se eu for mesmo americanizada e europeizada e africanizada e indigineizada e orientalizada e ninguém me reconhecer no espelho? Quatro cantos alicerce. Repete: dó-ré-mi-ré-dó. Nos quatro cantos do planeta repetirão essas notas contigo, pois a música é universal. Mas tem que treinar muito para cantar elas bem afinado, senão não vão te entender; não és universal. Vê, os músicos falam uma língua e têm que aprender a falar e ler nessa língua. Senão não tem música. Ou fala a língua de Deus e do universo, ou arde no inferno. Passa a vida treinando a língua de Deus e arde no inferno igual, porque o céu é para os poucos que já estão lá fiscalizando a entrada. Eu tô chamando isso de Deus, mas o Krenak chama de Humanidade. Só serás humano sabendo escrever humano com essas letras (a depender da geografia muda ou emudece o “o” final, OK?) e vestindo roupas de Humanos. Roupas essas apertadas engravatadas pretas da cor da sombra do teu quarto sem janela.

Esquece as tintas, arco-íris, cantigas de roda; esquece África, esquece Arábia, deleta Tupiniquim. A Humanidade é branca e veste preto em luto por si mesma.

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