Amor nos tempos do Corona

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Confinada meses a fio em uma biblioteca para a escrita de uma tese, tive uma visão. Foi no dia seguinte a um intenso ritual de orixás, do qual eu acordava lentamente. Enquanto os tambores deixavam de soar na memória de minha pele, os pelos até ali eriçados baixavam lentamente a guarda. Era um cubículo solitário. Embora dentro do que seria um aquário se contivesse água, me sentia imersa em um rio. Me sentia um rio que precisava esguichar amor por aqueles poros; escamas expostas ao vento. Pelo vidro que inviabilizava o vento, vertiam verdades da vida.

Avistei o amor maior. Não pela janela do cubículo, mas pelas ventosas dos olhos de cada jovem sedento por conhecer, entender, transformar o mundo; dispersos entre as longilíneas paredes dos corredores da universidade. Uma infraestrutura enorme, com diversas facilidades e conforto, para o abrigo de mentes e corpos de milhares de estudantes por dia. Muitos rostos esboçavam ambição, desejo de saber e expansão, mas o fundo do olhar não deixava enganar a única coisa pela qual ansiavam verdadeiramente. Amor.

Era uma cidade repleta de prédios, laboratórios e auditórios; bibliotecas com livros sobre o mundo inteiro em inúmeras línguas. Tudo para alimentar e distrair o corpo e a mente, enquanto a alma morria de fome. Cada olhar gritava “estou aqui: minha boca fala, minha mente pensa, meu futuro está garantido. Mas o que eu desejo, sempre desejei e sempre desejarei é amor”. Não era amor de filme, amor romântico, amor que promete salvar da solidão. Era amor mesmo. Amor da solitude, da solicitude; amor da plenitude.

Amor do passarinho que na mesma janela toca com o bico pedindo comida, pedindo cuidado, passarinho que nem percebe nossa presença e canta para nós. Amor da abelha que beija a flor para curar o mel, pelo mais puro instinto de sobrevivência. Amor do rio que continua brotando água onde o asfalto ainda não o aterrou – puro instinto de sobrevivência. O rio que verte verdades sobre a vida – que perdemos o instinto de ouvir.

Nosso puro instinto de sobrevivência não era o de acumular comida para não passar fome; era o de compartilhar comida para ninguém passar fome. Não era o de acumular conhecimento para se distinguir dos outros; era o de compartilhar conhecimento para aprender com os outros. Não era o de poluir o rio para produzir eletricidade; era o de amar o rio para ver refletida nele a luz da lua. Nosso mais puro instinto de sobrevivência não era se fechar no cubículo da solidão; era cuidar do mundo com gratidão.

Confinamos a nós mesmos em cubículos de solidão, dos quais nos acreditávamos livres para sair a qualquer momento. O confinamento físico agora não é mais escolha. Mas o da alma é.

Pense no outro. Escute o outro. Faça pelo outro. Ajude o outro. Aprenda com o outro. Ensine o outro. Cante para o outro. Cuide. Quem sabe a sua alma e a dele descobrem a verdadeira liberdade, a liberdade que cura: amar.

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