Tempos de vacas magras e burgers gourmet

 In essays

Mais um ano novo chega, em tempos de vacas magras. As vacas berram: seu leite, tão pasteurizado-acidulado-intoxicado-geneticamente-modificado, já não serve para os novilhos, que sofrem de intolerância à lactose, quanto menos para os bezerros, alérgicos à bactéria do leite. Tetas cheias, fome no mundo, e ninguém para alimentar. As vacas estão perdendo sua função distintiva.

Mais um ano novo chega, em tempos de burgers gourmet. Os bois contentes: o sacrifício de sua vida inteira ganha sentidos nunca dantes experimentados. A combinação de sua carne triturada e suculenta com avocado hipodrônico, gergelim negro indiano, queijo de cabra (não de vaca) feta grego harmonizado com notas de maionese defumada e pimenta rosa entre duas fatias de pão australiano, é imensamente mais saborosa que seu monótono pasto. Os bois têm sua pacata existência dignificada.

Mais um ano novo chega, em tempos de vacas virgens. As próprias vacas, agora inúteis, peleiam umas com as outras: as magras chamam as gordas de gordas, as gordas de magras; as magras acusam as gordas de serem gordas por preguiça (o termo correto é privilégio), e as gordas acusam as magras de serem magras por mau gosto (o termo correto é liberdade de expressão). Se já não proveem leite, sobra tempo para abocanhar burgers gourmet e bater panela no curral. Fato é que nunca tantas vacas assim diferentes tinham berrado; enquanto elas apenas mugiam, berrar era exclusivo dos bois. Mas agora todas hão de permanecer no estábulo.

Mais um ano novo chega, em tempos de renovação de fazendeiro. Os porcos da fazenda estão esperançosos, vislumbrando mudanças nunca dantes experimentadas nas divisões da fazenda: o novo fazendeiro há de lhes liberar das chicotadas nas costas, aumentar seus chiqueiros significativamente, prover abundância de rações de qualidade – haverá mais burgers no cardápio, com certeza. Já os outros bichos da fazenda não se conformam. O futuro fazendeiro reiterou que lhes dará chicotadas nas costas, que os expulsará de seus chiqueiros e que cortará suas rações e burgers. Aliás, ninguém mais vai ficar mamando em teta de vaca, quanto menos de porca doméstica.

Os tempos de vaca gorda passaram para os bichos da fazenda. Suas entranhas continuarão sendo devoradas pelos porcos, com risoto negro de lula e molho chimichurri até os ossos, que serão roídos por seus pets.

Os tempos de voar e gorjear passaram; só o fazendeiro é quem poderá cantar o grito de ordem. As vacas gordas mudas em seus lares. Os bois, carcaça de burger. Os porcos a se entupir de burger gourmet.

Aos bichos só resta a revolução.

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Comments
  • Mauricio Teixeira
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    Ótima crônica. Na forma (com anáforas) e conteúdo: referências.

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