Tinder, por que não

 In crônica, auto-ajuda, sociedade

Em tempos que permanecemos constantemente conectados com o nosso umbigo, ops, quero dizer, com nossos celulares, aplicativos, computadores e séries Netflix, nada melhor do que uma solução adequada para os solteiros: o Tinder. A frustração de sair na rua e não conhecer ninguém, já que todos olhares estão fixados em telas brilhantes, tornou-se contornável. A qualquer momento pode-se abrir o aplicativo e ter um “match” com alguém, isto é, alguém que você curtiu e que te curtiu. Seja por timidez, por preguiça de sair na rua, por cansaço daquela frustração, ou por se viver em uma sociedade em que cada vez menos se socializa no mundo real, por que não tentar?

Para quem não sabe, o Tinder é um aplicativo para se conhecer pessoas online, e depois provavelmente no sentido bíblico. Escolhe-se um raio de distância, de idade e de gênero para que o software comece a mostrar fotos de outros usuários com uma mini autodescrição. Pode-se curtir um usuário deslizando a foto com o dedo para a direita, ou “passá-lo” para trás deslizando para a esquerda. Assim como outros aplicativos de relacionamento e redes sociais, ele possibilita conhecer gente com quem dificilmente se teria contato por outros meios. Gente legal, com interesses em comum, mas que talvez frequente outros bairros, tenha acabado de se mudar para a sua cidade, ou que simplesmente queira abrir novas chances para o destino amoroso.

Se essas pessoas são mesmo legais só vai se saber depois do match, conversando com elas no chat ou em um encontro ao vivo. Até aquele momento, o que vale mesmo é se elas são bonitas, pelo menos nas fotos. Talvez não sejam tão bonitas, mas escreveram coisas simpáticas em suas dez linhas de apresentação. Talvez não escreveram nada, mas são bonitas e com um corpo torneado. Talvez não tenham um corpo torneado, mas pareçam divertidas. Por aí vão os critérios e profundas reflexões por trás de cada deslize de dedo. A depender do seu humor, a seleção torna-se mais ou menos exigente, deslizando mais para a esquerda com a desesperança e mais para a direita com o desespero.

Em um mesmo período, é possível conhecer muito mais gente interessante no Tinder do que na vida real. Especialmente para quem trabalha como autônomo em casa, não passa longos tempos nem na faculdade nem em uma empresa interagindo com novos colegas. Quando você não tem companhia numa sexta à noite e gostaria de conhecer alguém novo, o Tinder garante a realização do seu desejo prático em alguns minutos. Se o cara bonito e interessante não responde logo, você se encontra com o de rosto simpático e olhar inteligente. Vocês divertem-se pelas ruas da cidade, mas talvez o cara bonito e interessante, ou o intelectual de nariz torto, corresponda mais às suas expectativas de um parceiro. Por que não sair com um ou outro para tirar a teima?

Aquelas fotos com mini legenda vão tornando-se planos A, B, C, a serem trocadas e descartadas como papel higiênico. Você apenas reconhece que faz isso ao perceber que você mesmo virou papel higiênico.

Quanto mais a tecnologia avança e se sofistica, mais sofisticados ficamos com as exigências de nossos umbigos e menos com nossas maneiras de nos relacionar. Deslizamos para os lados, para cima e para baixo, escolhendo qual série assistir, qual comida encomendar online, qual dos mil conhecidos no Facebook contatar para atingir os interesses do dia, e, quando menos esperamos, percebemos que nos tornamos tão descartáveis quanto tudo aquilo que consumimos.

Tinder, por que não? Experimente, mas cuidado para não deslizar para a esquerda e passar para trás o perfil contendo a sua própria foto.

 

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Showing 3 comments
  • Perla
    Responder

    …porque não!!!! aqui a preposição é causal

    • Nina
      Responder

      Porque minha mãe me ensinou tão bem o português, transgrido suas regras intencionalmente para criar ambiguidade! Por que não?

  • Joy
    Responder

    Nina, hoje tive a felicidade de encontrar o seu blog.

    Lerei com calma todas as coisas que escreveu.

    Curiosamente, fui ler o seu “sobre” e fui procurá-la no Google.

    Uau. Você é tão, mas tão diferente de mim ou de qualquer pessoa que eu tenha conhecido na minha vida toda que me causa curiosidade em saber uma primeira coisa hahahahahahh

    Qual a sua música preferida ? Rs

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