Hedonistas vs. Monges (Choques Culturais 4)  

 In crônica, sociedade

O Brasil é o paraíso do prazer. E quem lá vive, via de regra, desfruta disso: bronzear-se ao sol, banhar-se em mar azul, passar a tarde inteira comendo um bom churrasco ou feijoada, tocar em uma roda de choro, sambar, rebolar, beijar na boca. Ou seja, o Brasil é o país do pecado, daqueles que se deixam levar pelo prazer em vez de dedicarem suas vidas a uma devoção. Ou apesar de dedicarem suas vidas a diversas devoções, já que o país tropical prolifera tantos prazeres quanto crenças espirituais. Quanta contradição.

A Europa passou pelo que o sociólogo alemão judeu Norbert Elias chamou de “processo civilizador”. De acordo com minha livre interpretação de sua tese, no processo civilizador as populações europeias aprenderam gradualmente a reprimir suas emoções e instintos corporais para conviverem com o vizinho sem roubar seus porcos, mesmo após dias sem comer, e, principalmente, para não serem assassinados pelo vizinho, caso o instinto de sobrevivência tornasse o roubo inevitável. Os europeus passaram também a sentar-se eretos e imóveis à mesa, à espera de que todos se aprontassem para o jantar e desejassem “bom apetite” antes de começarem a comer seus bifes de porco empanados.

A crença no castigo de Deus também foi uma importante e duradoura contribuição para que os europeus contivessem seus impulsos corporais. Mas mesmo aqueles que se diziam ateus reprimiam-se para evitar a punição do Estado, da polícia, daqueles presentes à mesa de jantar e da própria família. Os que não obedeciam eram outrora queimados, decapitados ou esquartejados em praça pública, enquanto os mais contidos assistiam com o regozijo de se safarem (interpretação livre de Michel Foucault). Hoje temos manicômios e antidepressivos para quem não consegue se reprimir, além de Papai Noel prometendo realizar os desejos de quem que se comportar direitinho.

Embora muitos europeus não considerem o Brasil um país de cultura ocidental, fomos colonizados por esta. Temos Cristo Redentor, Papai Noel, roubos de porcos e rins, manicômios, torturas em praça pública, e regozijo daqueles bebendo champanhe eretos e imóveis em sua cobertura no trigésimo terceiro andar. Temos praia e mata atlântica; ou pensávamos que tínhamos, já que pertencem a turistas e multinacionais. Temos paraíso e inferno, temos Jesus, Oxalá, Preto Velho e Exu. Os nossos deuses adoram cachaça e fertilidade; os prazeres da carne e os do além. E acabam castigados pelo Estado, pelas multinacionais, pelos turistas, e pela própria família, como em todo o mundo.

Os brasileiros são hedonistas apesar de, ou exatamente como, seus múltiplos deuses. Multiplicidade permite mais que “bem e mal”, que “céu e inferno”, que “prazer e pecado”. Em vez de reprimir, permite diferenças, escolhas, sonhos; permite experimentar o mundo em sua plenitude através de todos os sentidos. Às vezes permite até comer um toucinho antes que todos se sentem à mesa, sem risco de esquartejamento. Permite um beijo escondido, já que, se Deus está vendo, ele também vai regozijar.

Agora, se o oposto do hedonista é o monge, e o europeu já não acredita mais em Deuses nenhuns, em nome de que ele se penitencia?

 

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