O futuro nos engoliu (e não vai cuspir de volta)

 In essays

Sabe aqueles filmes e livros de ficção científica, que a gente chama de ficção, mas morre de medo que se tornem científicos? 1984, Matrix, 2001 Uma Odisséia do Espaço? Já passamos de longe as datas antevistas pelos seus criadores, e ainda acreditamos que sejam ficção. Afinal, nada do que os filmes vislumbravam se realizou: não somos vigiados por câmeras de computadores em nossas próprias casas; não há uma realidade paralela virtual com controle sobre todas nossas conversações, transações financeiras, e produções audiovisuais; nem existem computadores que nos enganam solicitando a todo momento concordarmos com novos termos de compromisso que nem em duas vidas teríamos tempo de ler. Tudo isso não passa de ficção.

Quando pequena, eu morria de medo de extraterrestres. E mesmo assim, ou por isso mesmo, assistia filmes e lia livros sobre extraterrestres. Alguns diziam que os extraterrestres eram os humanos no futuro, que com tecnologia muito avançada voltavam ao passado. Back to the Future. Lembro de ver um gráfico de linha evolutiva que mostrava como nossa cabeça e olhos cresceriam com o tempo, como ficaríamos mais longilíneos, compridos e corcundas, parecidos com os alienígenas do clássico filme Invaders. Um álbum de figurinhas sobre a evolução humana e profecias sobre a Era de Aquário diziam que no futuro os seres humanos não precisariam falar para se comunicar uns com os outros.

E aqui estamos, sem precisar falar para se comunicar uns com os outros; nem para fazer nossas transações financeiras, nem para expressar audiovisualmente quem somos. Aqui estamos, sem precisar nem mesmo se comunicar uns com os outros, pois basta que nossos posts sejam curtidos e compartilhados. Basta que encaminhemos o que recebemos dos outros com um clique, sem a necessidade de escrever nada. Basta comprarmos no caixa automático; fazermos check-in online; sermos lembrados dos compromissos pelo calendário digital; buscar o endereço certo, como chegar, onde comer, em qualquer lugar do mundo através do Google Maps; assistir ao filme que bem entendemos, na hora que bem entendemos no Netflix, para vivermos vivamente a vida. Para vivermos nossa vida do futuro, nossa ficção.

Nessa fantástica ficção, muito afortunadamente não precisamos de ninguém, pois, fora os protagonistas, todo o elenco é composto por monstros. Zumbis que caminham pelas ruas fixados em seu celular, batendo uns nos outros, negando ajudar um idoso, um mendigo, um pedido de informação. Monstros que testemunham uma agressão, um tom grosseiro contra uma mulher ou uma criança, e fingem não ter visto nada. Cegos, como os do Ensaio Sobre a Cegueira, que de tão desesperados em suprimir seu medo pelo outro e seu pavor perante o futuro, não hesitam em aniquilar os outros e o seu próprio futuro.

Eu estou triste. Eu estou triste quanto ao futuro, pois ele aniquila meu dia-a-dia. A pressão por expandir a cada instante meu networking, meus canais de ação e expressão no mundo, minhas curtidas e compartilhamentos, e de, acima de tudo, pagar as contas dos próximos cinco meses, cinco anos, cinquenta anos, não me deixam um segundo para respirar; quanto menos para falar com o outro.

Eu estou triste por andar na rua olhando o celular com a corcunda de um Invader. Eu estou triste por querer saber a senha do wifi. Eu estou triste por estar atada a essa Matrix invisível que me força a ignorar tanto a pessoa sentada ao meu lado no ônibus, quanto outros milhões em situação de trabalho escravo em países que nem conheço, para comprar o produto mais barato, um morango fora de estação, e poupar minhas contas mensais.

Eu estou triste por meu celular saber muito mais sobre mim do que eu mesma, me sugerindo através de sua vigia constante produtos e serviços que eu nem sabia que existiam, mas que se encaixam como uma luva em minhas preferências e necessidades atuais. Eu estou triste porque descobri que meu computador me trai, corrigindo automaticamente palavras e datas, de maneira que nem sei mais se os equívocos foram de fato meus.

Eu estou triste porque, mesmo nunca tendo duvidado de que aqueles filmes e livros fossem no fundo profecias, não consigo evitar que suas ficções se tornem diariamente realidade.

Estou triste porque nós não conseguimos evitar nem que o futuro imaginado, nem que o passado vivido e doído de fato, se realizassem.

(Arte: Michael Serebrjakow, East Side Gallery, Berlim)

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